Carta de ISALTINO MORAIS ao jornalista Luis Osório

Isaltino“Recebi em Outubro passado, na sequência de uma crónica acerca das últimas eleições autárquicas, uma carta de Isaltino Morais. Pelo seu punho, escrita numa letra difícil de decifrar, respondeu a um texto que, legitimamente, considerou cruel.Ao longo dos últimos mais de 20 anos, critiquei sempre os comentários dos jornalistas em cima dos direitos de defesa de quem se sente ofendido. Esta não é uma carta que se integre no legal direito de resposta, mas é uma mensagem que merece ser lida sem mais comentários. E num ponto, Isaltino Morais tem razão: não foi, ao contrário do que escrevi, condenado por corrupção. Isso é um facto.
Decidi partilhar o que me enviou por considerar relevante o que escreveu. E por julgar ser do interesse da generalidade da opinião pública.” Luís Osório

E aqui está a carta:

“EP Carregueira, 5/10/2013
Recordo-me de, há uns anos atrás, assistir a uma entrevista que Vexa. fez a seu pai, num canal de televisão que não recordo. Sei que desde então passei a admirá-lo e a acompanhar a sua carreira jornalística. Não aprecio particularmente a linha editorial do jornal SOL mas não dispenso nunca a leitura da sua crónica na revista Tabu, na qual tem dado a conhecer facetas ou episódios de personalidades marcantes da sociedade portuguesa.
Estou habituado a ser o ‘bombo da festa’ de muitos jornalistas, cronistas e comentadores que de mim falam sem qualquer conhecimento de causa. Envolvido, durante anos, num processo judicial que culminou com a minha condenação a prisão por dois anos, por fraude fiscal e, decorrente deste, também por branqueamento de capitais.
Ao longo deste processo passei por tudo. Sistematicamente o ‘bode expiatório’ para tudo o que de mal acontece na política: de ladrão a corrupto, muita gente se sente no direito de me catalogar a propósito de tudo e de nada. Muitas vezes gratuitamente.
Agora surpreendo-me francamente do teor do seu artigo na revista Tabu que transcrevo: “O povo votou nele em massa. Ele rouba, mas faz, disseram-me”, e “o que não pôde estar presente por cumprir pena de prisão na Carregueira, acusado de pequena e grande corrupção”.
Ora, sabe V.Exa. muito bem que não é a acusação que coloca as pessoas na prisão. Não fui condenado pela acusação que refere. Fui condenado, como já referi, por fraude fiscal e branqueamento de capitais. Não fui condenado por qualquer crime no exercício de funções.
Então porquê esta insistência em me colocar o ferrete da corrupção? Habituei-me a acompanhar a sua escrita, onde sempre reconheci preocupação de rigor, surpreendendo-me agora com a banalidade a que estava, de mim, habituado com aqueles que na política ou comunicação social ficam de consciência tranquila só porque têm a coragem de dizer ‘ali está um corrupto’. Ora o corrupto não está aqui, deverão procurar noutro lado.
Sabe, sou pai de família, tenho filhos e um deles fez 11 anos justamente no dia 4 de Outubro – foi a prenda que V. Exa. quis dar ao meu filho marcando o Pai com o ferrete da corrupção.
Sabe, cometi um erro que consistiu em não ter declarado uma conta que tinha na Suíça e tal conduziu à condenação por fraude fiscal, sendo certo que nunca fui notificado pela Administração fiscal para pagar qualquer imposto. E esse erro saiu-me caro. Estou a pagar e ninguém num Estado de Direito pode chamar-me corrupto ou ladrão, mas muito menos alguém como o senhor, que se situa numa dimensão de rigor e moral que, em primeiro lugar, exige correção a si próprio.
Os oeirenses não votaram em mim e o Senhor sabe bem quais as motivações dos eleitores. Eles votaram num projeto, num programa e num modelo de desenvolvimento que ao longo de quase três décadas transformou Oeiras no município em Portugal com os melhores indicadores de desenvolvimento, que não vou citar pois estou certo que os conhecerá. Dediquei 30 anos da minha vida a Oeiras. Dei o melhor da minha vida, da minha vontade, esforço e determinação. Criei uma equipa política e técnica em Oeiras inigualável e os resultados estão à vista. Foi nisso que os oeirenses votaram. Eu, infelizmente, terminei a minha carreira política na prisão, mas reitero: condenado por fraude fiscal e branqueamento e sem qualquer conexão com o exercício de funções, estando a minha consciência em paz e tranquilidade.
Entendi escrever-lhe não para qualquer direito de resposta, mas apenas para lhe explicar a minha mágoa pela crueldade do seu artigo e pela consideração que me merece.
Mas foi injusto, admitindo, todavia, terá por esta vez, sido levado na onda de um pensamento ‘politicamente correto”. Quem está derrotado não pode sequer defender-se porque há muito quem prefira iludir-se que é um corrupto que está na prisão. Assim todos ficam em paz. Mas o senhor é uma pessoa esclarecida e creio que mais ficará com esta carta.
Apesar de tudo continuarei a ler as suas crónicas. Sempre fui um homem de paz, a minha maior qualidade é gostar das pessoas e continuarei a gostar.

Creia-me com a maior consideração, Isaltino de Morais”
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