Mensagem do Grão-Mestre Fernando Lima

Mensagem do Grão-Mestre

Discurso da Tomada de Posse do 43º Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano-Maçonaria Portuguesa:

Queria, antes do mais, agradecer a presença de todos neste acto, com especial saudação para os visitantes que, vindos dos mais variados lugares do mundo, fraternalmente aqui estão presentes.

1 – A breve história factual do século XXI está já recheada de emoções, humilhações, medo e esperança.A incerteza prepondera nas acções e no domínio do conhecimento e o sistema mundo onde tudo parece desarticulado, está incapaz de tratar os problemas vitais que se lhe colocam:
As instituições internacionais, formais e informais, revelam-se impotentes, a economia financiarizada está há demasiado tempo fora de controlo, a pobreza, as questões alimentares, a fome e a escassez de água estão em primeiro plano, a degradação da biosfera é indesmentível;
o ressurgimento e a multiplicação dos conflitos étnicos, políticos, religiosos são uma evidencia, o aumento do número de Estados, a multipolaridade geopolítica e a ausência de segurança colectiva uma realidade;
a influência da opinião pública e da comunicação social incontornáveis, os fracos progressos da justiça internacional, da democracia e da cidadania fazem tremer as liberdades.

O chamado Ocidente, a que pertencemos, estando inquestionavelmente a atravessar uma crise de identidade, parece ser o receptáculo de todos os medos, que enfraquecem os Estados, os projectos colectivos, o estado de direito, a democracia, a cidadania.

Ninguém parece duvidar da crise ou das crises.

Mas há uma que passa quase despercebida, “cancerosa”, e que a termo pode ser absolutamente devastadora para a democracia e a liberdade.

É importante sublinhá-la.

É a crise da educação, orientada quase exclusivamente por uma razão instrumental centrada no resultado técnico e económico, onde as humanidades, as artes e o pensamento crítico estão largamente ausentes, amputando o acesso a um mundo rico, subtil, complexo, que fazem ricas e fraternas as relações humanas, conferindo-lhes a dignidade de serem mais do que simples relações de uso e manipulação.

Portugal navega nesta vaga oceânica descaracterizado das suas tradicionais âncoras culturais e espirituais, indistinto.

A preocupação de como se governa o mundo parece ceder integralmente à preocupação de como cada qual se governa.

As sociedades estão profundamente ansiosas e inquietas; esta fase da mundialização vive uma crise de humanidade e decência, que aproxima e desune, integra e separa, esboroada de solidariedades, num caldo patologicamente individualista, consumista, homogeneizadas em padrões culturais únicos e indiferentes, sem referências convictas e fidelidade a valores ou éticas de compreensão e discussão.

As mulheres e os homens parecem viver num mundo sem qualidades, na contradição e tensão entre liberdade e segurança, egoísmo ou altruísmo, inquietos, tristes, ressentidos, frágeis, impotentes face à ambição, á inveja, à especulação, à corrupção, à falta de escrúpulos de sistemas que os humilham.

Não se veja nestas palavras derrotismo ou profecia de catástrofes.

Apesar de tudo, o apocalipse não é para amanhã e há acontecimentos e sinais positivos de mudança.

A humanidade dispõe de dispositivos consideráveis para melhor atingir objectivos de convivência digna, se a isso os melhores se dispuserem.

E os maçons estão entre os melhores.

Há que saber assumir que o estado do mundo pode ser diferente e que a sua medida depende mais do que cada um faz do que a influência que o estado do mundo pode exercer no que fazemos ou desejamos fazer.

A tomada de consciência já é um bom princípio.

2 – O que pode a Maçonaria fazer por cada um e por este mundo genericamente desamparado e por uma sociedade que parece conduzida para uma bancarrota moral?

À vida, como obra de arte, pode a Maçonaria dar um sentido, com o uso da razão, do mito, da poesia, da estética, do amor, altruísmo, referências e valores humanistas de resistência que permitem a cada maçom contribuir para a solução de todas as crises.

A Maçonaria, instituição iniciática, humanista, simbólica, é uma forma de pensamento original: os valores humanistas, o primado da razão, os ritos, os símbolos, a busca da sabedoria, a acção altruísta e de cidadania individual são um saber próprio.

E uma espiritualidade laica, libertadora do ser, que permite viver este tempo ambivalente, complexo, de incerteza, que dá a cada maçom a possibilidade do conhecimento de si levado às profundezas da memória e das emoções, o controlo da vida, e a serenidade de abordar as questões, cada um no seu lugar, sem ostentação e sem esperar gratificação social.

Uma espiritualidade original praticada em inteira liberdade de pensamento e acção, uma via iniciática do seu tempo, com fidelidade à tradição e aos valores que correspondam ao significado profundo da sua época, uma compreensão dos ritos e símbolos de forma renovada, reafirmando a via da interioridade e da luz.

Onde os seus rituais e a sua linguagem simbólica restabelecem a parte escondida do homem necessária ao seu equilíbrio.

A sabedoria maçónica, aproximação da máxima felicidade e lucidez, motiva a espiritualidade liberativa para agir, aqui uma espiritualidade que não seja inteiramente espectadora, recalcitrante contra os discursos vazios, as pompas desnecessárias, o pensamento único, as promessas falaciosas, as atitudes pretensiosas, a vontade de se encerrar exclusivamente num esoterismo confuso.

Saber e não agir muitas vezes equivale mesmo a não saber.

A Maçonaria combate o subdesenvolvimento ético, afectivo, espiritual, mediante princípios de esperança e responsabilidade.

E não se resigna à injustiça, à ausência de razão, à barbárie, apostando nos valores da liberdade, da igualdade, da solidariedade, da laicidade, nos direitos humanos, na democracia, na justiça social, na defesa da natureza, no pensar numa sociedade decente.

E numa partilha comum no respeito pelo outro, pela diversidade dos modos de vida, de cultura, dos lugares e concepções da felicidade, fazendo da tolerância e inteira liberdade de consciência, de religião, de expressão, de associação, de vida privada, de dignidade, do trabalho, do saber fios condutores de comportamento.

É esta a sabedoria e espiritualidade própria, república do espírito, que os maçons podem oferecer a este mundo.

Como o fizeram nos últimos trezentos anos em que muito influenciaram o que de bom existiu na evolução civilizacional e, também por isso, nem sempre bem quistos pelos totalitarismos e fundamentalismos de toda a espécie, expressos ou encapotados.

Entretanto, continua, sem razão, a ser objecto de curiosidade, perplexidade e incompreensão, entendida muitas vezes como anti-clerical, quando e apenas laica, oculta onde apenas iniciática.

Não é demais repetir: a Maçonaria não é uma sociedade secreta, não propõe nenhuma verdade, nenhuma acção colectiva sobre o mundo.

É um movimento discreto, pois para aqueles não iniciados a porta do templo está fechada, lugar da prática ritual e de uma linguagem simbólica que assegura serenidade onde apenas cada um está em questão.

Parafraseando um maçom do século XIX: face á vontade de poder os maçons não fazem jogos de poder, face ao egoísmo predominante, propõem solidariedade, face aos integrismos de todos os tipos, falam de tolerância e lealdade, face ao pensamento único convidam a uma análise autónoma da sociedade, face às certezas intelectuais, opõem as incertezas do mundo iniciático dos símbolos, face aos exclusivos sociais, éticos ou outros, abrem-se a todos que aceitem formar o longo caminho maçónico para entrar nos séculos vindouros.

Apesar das mudanças a Maçonaria continua o seu caminho, com serenidade, o respeito de si, e dos outros, com um ritual por guia, com símbolos por instrumento e linguagem, e num espaço sagrado mas não dedicado a nenhuma divindade.

Fiel à sua vocação, a Maçonaria de amanhã não será a mesma que foi no passado, nem a mesma que é hoje.

A Maçonaria está no coração e no espírito de cada maçom e este é o grande segredo.

3 – O Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa, os maçons portugueses, têm uma longa, fundada e legitima tradição maçónica, história e simbiose com a sociedade profana reconhecida por todos.

Mas não deixa de reflectir, por vezes, e nem sempre da forma mais correcta e serena, as idiossincrasias da sociedade profana ou os seus conflitos.

Sabemos bem o que foi o passado e honramo-lo.

Mas nem sempre olhamos para a frente.

Sabemos da legitimidade das lojas e que os maçons são pensadores, transmissores da tradição e actores na sociedade profana.

Mas também sabemos que a obediência é o centro de união das encruzilhadas comuns, centro de união sublinhado nas Constituições de Anderson.

Foi nesse espírito que o Grão-Mestre que hoje toma posse apresentou e viu sufragadas um conjunto de ideias que cumpriremos sem tergiversar, no respeito da legitimidade e competências próprias de cada um dos órgãos da nossa Augusta Ordem.

Convidamos cada dos nossos irmãos a reler essas ideias e confrontá-las com a nossa actuação futura, encontrando aí a relevância dada às lojas e à sua contribuição para a gestão da obediência e seu rejuvenescimento, às acções concretas de fraternidade e solidariedade, à defesa e protecção da honra, à concepção de justiça maçónica prioritariamente conciliatória, à formação e institucionalização de instituto de estudos que nos dignifique ainda mais, à gestão prudente do património, à universalidade das relações internacionais e particular atenção aos espaços de língua portuguesa, às políticas de comunicação.

Habita-nos a dúvida, a tolerância, o diálogo, mas não o laxismo, a complacência para comportamentos que confrontem menos valorativamente os universais princípios da Maçonaria.

Compreendemos que haja algumas tentações de luta de poder, conflitos e as nossas ideias sufragadas foram bem claras quanto ao espírito de conciliação que nos orienta, com serenidade, como é próprio da nossa sabedoria.
Mas não abdicaremos de ser Grão-Mestre de uma obediência iniciática, nem de honrarmos todos os past Grão Mestres que passaram ao Oriente Eterno.

E aos vivos a quem presto a minha homenagem: ao past Grão-Mestre Eugénio de Oliveira e à sua determinação na condução dos destinos da nossa Augusta Ordem; ao past Grão-Mestre António Arnaut, referência ética em que todos nós nos revemos e aprendemos; ao past Grão-Mestre António Reis, que hoje, para meu orgulho, me transmitiu o malhete.

E aqui permitam-me um breve acto de humildade sincera e referência personalizada.
Meu querido irmão António Reis foi para mim um privilégio ser membro Conselho da Ordem e ter trabalhado sob o teu malhete.

Prestigiaste nacional e internacionalmente a nossa Augusta Ordem e terás sempre o nosso apoio como Presidente do CLIPSAS, onde, temos a certeza, deixarás marca profunda.

Não fossem os teus ensinamentos e incentivo talvez tivesse vacilado na coragem de aceitar este cargo.

E já agora permitam-me referenciar os Grão-Mestre adjuntos António Justino e Eugénio Monteiro e todos os membros do Conselho da Ordem com quem também trabalhei e sublinhar o que de testemunha viva sou da sua dedicação e qualidade maçónica.

E todos os obreiros do Grande Oriente Lusitano, sem excepção, a quem nos une especial fraternidade: todo o irmão é um amigo a quem nos une uma sólida cadeia de união, que vem do passado e se projecta para o futuro.

Os tempos são difíceis e mais que as respeitáveis e saudáveis divergências entre alguns de nós, o importante é o que nos une. Tenho a certeza que todos, mas todos os obreiros sem excepção saberão honrar a nossa Augusta Ordem e muito contribuirão para a engrandecer.

Pitágoras, filósofo, dizia que antes do mais devemos respeitarmo-nos a nós próprios.
Deixei aqui uma parte substancial do meu pensamento e expressá-lo-ei sempre da forma mais clara possível, tendo-o por guia, lutando sempre pelos valores e virtudes maçónicas.

O Grão-Mestre está exclusivamente ao serviço dos Maçons, da Obediência e da Maçonaria e para isso contarão com ele.
Como o Grão-Mestre conta que todos os obreiros estejam também ao serviço da nossa Grande Augusta Ordem.

Pelo seu engrandecimento.
Disse.

Lisboa, 24 de Setembro de 2011 (e:.V:.)

O Grão-Mestre
Fernando Lima

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