António Reis Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano – XI Encontro da União Maçónica do Mediterrâneo

Intervenção de António Reis na UMM

O Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano-Maçonaria Portuguesa, António Reis, no XI Encontro da União Maçónica do Mediterrâneo subordinado ao tema:

“A Emergência de uma nova Governança Mundial”.

Montpellier, 9 de Abril de 2011

Na altura em que os países da margem Sul da Bacia do Mediterrâneo sofrem mudanças profundas, em virtude da sede de liberdade dos seus povos, seria mais profícuo que questionássemos, em primeiro lugar, não o que a Franco-Maçonaria pode fazer na perspectiva da emergência de uma nova governança mundial, mas sim na perspectiva do aparecimento de uma nova governança na região do Mediterrâneo, em sentido amplo. Tanto mais que hoje assistimos ao que se pode denominar de Primavera dos povos do antigo Mare Nostrum dos romanos e mesmo para lá dele, em que as lutas contra as diferentes tiranias multiplicam-se e mostram um enorme desejo de liberdade, mesmo se à custa de muito sangue derramado.

Estes acontecimentos bastante recentes demonstram, se dúvidas houvesse, que os valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade não pertencem ao património exclusivo dos povos europeus, ou ocidentais, se quisermos utilizar este conceito impreciso. Todos os povos, no que têm de mais profundo e autêntico, desejam que esses valores se concretizem na realidade, e que os seus países se tornem verdadeiros regimes democráticos.

No entanto, todos sabemos, segundo os ensinamentos da História, que a construção da democracia na sua plenitude é um processo complexo, não apenas no plano institucional, mas também nos planos social e cultural. A democracia não se esgota apenas nos processos de legitimação do poder e no pluralismo “partidário” que são indispensáveis. Para além disso, a democracia é justiça social, equidade na partilha da riqueza produzida, não discriminação em função do género, laicidade nas relações entre o Estado e as religiões e respeito pelos direitos fundamentais do ser humano. A herança do Iluminismo, de que somos os continuadores, mostra que estes valores são universais.

Os povos, nomeadamente nesta região da Bacia do Mediterrâneo, são histórica e culturalmente diferentes, apesar de terem partilhado, ao longo dos séculos, muitas experiências comuns, ainda que frequentemente conflituosas. No entanto, as diferenças de identidade não devem, nem podem, prevalecer sobre a nossa condição humana comum nem sobre o desejo generalizado de viver, dignamente, em sociedades livres e justas.

Não existem povos condenados a serem inferiores, nem povos predestinados a serem livres. Podemos mesmo dizer, como Saint-Just, que a felicidade é uma ideia sempre nova que inspira e atrai todos os homens e todas as mulheres, aqui como em todas as regiões do mundo. Posto isto, que devemos e podemos nós fazer para contribuir activamente para disseminar os valores que, sendo os nossos, são também aqueles por que a Humanidade anseia?

A Declaração final deve afirmar a nossa solidariedade para com os que lutam pela liberdade nesta região, e também a nossa vontade de fazer tudo o que contribua para afirmar os valores que nos unem e identificam.

Por outro lado, não devemos esquecer que o combate por uma nova governança mundial deve ser uma prioridade para a Franco-Maçonaria liberal e não dogmática, se quisermos garantir a aplicação universal dos nossos princípios e valores. Uma governança mundial que deve enfrentar as novas ameaças, tais como o aquecimento global e as inseguranças alimentar e energética, assim como as velhas chagas da pobreza e da violência.

Esta nova governança exige não só uma ordem económica internacional menos desigual, o que implica a diminuição das barreiras proteccionistas nos países desenvolvidos e a introdução de reformas estruturais no sistema financeiro internacional, mas também uma ordem política mundial, capaz de respeitar as aspirações de liberdade e de justiça social. Uma ordem política que passe pela renovação da ONU, cujo Conselho de Segurança deve possuir uma maior representatividade do ponto de vista geopolítico, para ajudar a resolver os conflitos que surgiram principalmente no Médio Oriente e na África do Norte.

A Assembleia-Geral das Nações Unidas permanece, no entanto, o lugar de convergência das forças e das instituições chamadas para criar e pôr a funcionar a governança mundial. Mesmo que a cúpula do poder se mantenha no Conselho de Segurança, a Assembleia-Geral deve continuar a ser o centro nevrálgico dos consensos a estabelecer entre os diferentes interesses e perspectivas culturais. Estes consensos devem ter como principal directiva a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que é obra de franco-maçons, facto que não devemos esquecer. Acresce ser necessário aprovar directivas sobre domínios especiais, tais como a especulação financeira, que enfraquece os mais pobres, e constitui uma forma de agressão tão condenável quanto a violência armada.

Todas estas razões me levam a pensar que a Franco-Maçonaria liberal e não dogmática deve obter para o CLIPSAS – a sua mais abrangente organização internacional -, o mais cedo possível, um lugar de observador junto da Assembleia-Geral da ONU.

GRAND ORIENT LUSITANIEN

Au moment où les pays de la rive sud du bassin méditerranéen connaissent des bouleversements profonds, en conséquence de la soif de liberté de leurs peuples, il vaudrait mieux la peine peut-être de nous interroger, non pas sur ce que peut la FM faire dans la perspective de l’émergence d’une nouvelle gouvernance mondiale, mais en premier lieu dans la perspective de la gouvernance dans la région de la Méditerranée au sens large. Ceci d’autant plus que nous assistons aujourd’hui à ce qu’on pourrait appeler un printemps des peuples de l’ancien Mare Nostrum des romains et même au-delà de celui-ci, multipliant les luttes contre les différentes tyrannies et démontrant une envie de liberté au prix de beaucoup de sang.

Ces événements tout récents ont démontré, si des doutes avaient subsisté, que les valeurs de la liberté, de l’égalité et de la fraternité ne sont pas le patrimoine exclusif des peuples européens ou, si l’on veut utiliser ce concept imprécis, occidentaux.

Tous les peuples, en fin de compte, dans ce qu’ils ont de plus profond et authentique, souhaitent la concrétisation de ces valeurs dans la vie réelle leur donnant la forme politique de régimes démocratiques dans leurs pays.

Mais nous savons tous, d’après les enseignements de l’Histoire, que la construction de la démocratie dans sa plénitude est un procès complexe, non seulement sur le plan institutionnel, mais aussi sur les plans social et culturel. La démocratie ne s’épuise pas dans les procédures de légitimation du pouvoir et du pluralisme « partidaire », sans doute indispensables. Elle est en outre justice sociale, équité dans le partage de la richesse produite, non discrimination du genre, laïcité en ce qui concerne les rapports entre l’État et les religions, respect des droits fondamentaux de l’être humain. L’héritage des Lumières dont nous sommes porteurs nous montre que ces valeurs sont universelles.

Les peuples, notamment dans cette région du bassin méditerranéen, sont historiquement et culturellement différents, même s’ils ont partagé tout au long des siècles beaucoup d’expériences communes, encore que souvent conflictuelles.

Cependant, les différences identitaires ne doivent et ne peuvent prévaloir sur notre commune condition humaine et le désir généralisé de vivre dignement dans des sociétés libres et justes.

Il n’y a pas des peuples condamnés à l’infériorité, ni des peuples prédestinés à la liberté. Nous pourrions même dire, comme Saint-Just, que le bonheur est une idée toujours nouvelle qui inspire et attrait tous les hommes et toutes les femmes, ici comme dans toutes les régions du monde.

Ceci étant, que devons-nous et pouvons-nous faire pour contribuer activement à la propagation des valeurs qui, tout en étant les nôtres, sont aussi celles souhaitées par l’Humanité?

La Déclaration finale doit faire état de notre solidarité à l’égard de ceux qui luttent pour la liberté dans cette région et de notre volonté de tout faire pour l’affirmation des valeurs qui nous unissent et nous identifient.

En outre, nous ne devons pas oublier que le combat pour une nouvelle gouvernance mondiale doit être une priorité pour la FM libérale et adogmatique, si nous voulons garantir l’application universelle de nos principes et valeurs.

Une gouvernance mondiale qui doit faire face aux nouvelles menaces comme le réchauffement global et les insécurités alimentaire et énergétique, aussi bien qu’aux vieilles plaies de la pauvreté extrême et de la violence.

Cette nouvelle gouvernance exige non seulement un nouvel ordre économique international moins inégalitaire, ce qui implique la diminution des barrières protectionnistes dans les pays développés et des réformes structurelles dans le système financier international, mais aussi un ordre politique mondial capable de traduire nos aspirations de liberté et de justice sociale. Ce nouvel ordre politique passe par la rénovation de l’ONU, dont le Conseil de Sécurité doit acquérir une plus grande représentativité du point de vue géopolitique, afin de mieux résoudre les conflits qui s’étendent surtout dans le Moyen-Orient et en Afrique du Nord. L’Assemblée Générale des Nations Unies reste cependant le lieu de convergence des forces et des institutions appelées à créer et à mettre en place la gouvernance mondiale: Même si la coupole du pouvoir se maintient dans le Conseil de Sécurité, l’Assemblée Générale doit rester le centre de la quête des consensus entre les différents intérêts et perspectives culturelles.

Ces consensus doivent avoir comme point de repaire et directive principale la Déclaration Universelle des Droits Humains, elle-même œuvre de francs-maçons, ne l’oublions pas. Mais il faut en outre faire adopter des directives sur des domaines particuliers, tels la spéculation financière, qui affaiblit les pays plus pauvres, en une forme d’agression aussi condamnable que celle de la violence armée…

C’est pour toutes ces raisons que je pense que la FM libérale et adogmatique doit assurer le plus tôt possible un rôle d’observateur auprès de l’Assemblée Générale de l’ONU par le biais du CLIPSAS, sa plus étendue organisation internationale.

TRF António Reis
Grand-Maître du Grand Orient Lusitanien

in gremiolusitano.eu

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