As sociedades secretas e a revolução

Confundir o papel da Maçonaria e da Carbonária no período que levou à implantação da República é um erro comum, mas grosseiro. Eram em tudo distintas, embora lutassem as duas pelo fim da Monarquia. Quando o regime caiu, os seus destinos também foram bem diferentes.

É habitual, quando se fala da proclamação da República, em 1910, relacionar o evento com a acção determinante das sociedades secretas – a Maçonaria e a Carbonária -, o que frequentemente gera confusões, equívocos e erros grosseiros. Estamos perante duas organizações distintas, a todos a níveis, desde as origens, contextos fundacionais, referências, composição social e objectivos. Enquanto a Carbonária era de facto uma organização secreta, agindo no maior sigilo, nada transparecendo para o exterior, a Maçonaria dificilmente podia ser classificada como tal, uma vez que eram conhecidos os nomes dos seus dirigentes e publicava boletins e anuários com informações sobre muitos responsáveis a nível nacional e local.

A Maçonaria surgiu no início do século XVIII em Inglaterra. Esta é a realidade histórica, não obstante as referências lendárias que lhe foram associadas. Nascida num contexto inglês, numa sociedade que sofreu dezenas de anos de guerras religiosas e políticas, era um espaço privilegiado de reflexão, um ponto de encontro e de diálogo entre homens com ideias políticas e religiosas díspares. Daí a interdição de discussões de carácter político ou religioso fracturantes. Era naturalmente elitista – bastava a obrigatoriedade de saber ler e escrever para lhe limitar drasticamente o acesso.

Em contrapartida, a Carbonária, que nasceu 100 anos depois, em Nápoles, em plena Restauração, com ramificações no Jura e na Floresta Negra, implantou-se em Itália e em França reunindo descontentes com o rumo da Europa depois do Congresso de Viena, congregando liberais, antigos militares que serviram no exército napoleónico, burgueses, intelectuais e estudantes. Era uma organização política e popular, virada para o combate político, o que a distinguia da Maçonaria, utilizando um simbolismo relacionado com a floresta e os trabalhos nela realizados, o que de novo contrastava com o simbolismo maçónico da construção e dos construtores. Os seus membros tinham a designação de Bons-Primos e organizavam-se em Barracas.

Enquanto em 1727 já se assinala actividade maçónica em Portugal, as primeiras referências à Carbonária datam do início da década de 30 do século XIX, possivelmente entre emigrados liberais refugiados em Paris. As notícias dessa Carbonária desaparecem depois da guerra civil (1834), para voltarem a surgir na década de 40, com a Antiga e Sublime Ordem da Carbonária Lusitana. Após um período de actividade entre 1842 e 1843, desapareceu para ressurgir depois da Patuleia, e sob os ecos das Revoluções de 1848. Até 1852 teve uma intensa actividade com a organização de Choças e Barracas e a eleição de uma Alta-Venda, tendo Coimbra como principal centro de irradiação. Algumas estruturas persistiram até aos finais do século, mas a Carbonária que participará na revolução republicana é outra, ou melhor, são outras, no plural.

Ritos iniciáticos

Em 1897 surge a Carbonária Portuguesa, republicana, a partir de uma organização estudantil, a Maçonaria Académica. A sua actividade é modesta nos anos subsequentes, sendo o seu órgão máximo a Alta-Venda chefiada por Luz de Almeida como grão-mestre. As iniciações faziam-se no interior de casas, em especial nos Centros Republicanos António José de Almeida e Botto Machado, e no Teatro Heliodoro Salgado. A cerimónia decorria num ambiente decorado para inspirar temor ao candidato, usando os carbonários presentes balandraus (um capote largo e comprido) ou máscaras.

Paralelamente existiu outra organização, com a designação de Bonfim, também conhecida como Liga Progresso e Liberdade. A sua sede foi descoberta pela polícia, sendo o núcleo dissolvido pelos próprios membros, todos anarquistas intervencionistas ou republicanos avançados, que fundaram outro, a que deram o título de Carbonária Lusitana, também conhecida pela designação de Carbonária dos Anarquistas. Heliodoro Salgado foi o seu grande dinamizador. Esta Carbonária estava ligada, a partir de 1899, à loja maçónica irregular Obreiros do Futuro. As iniciações eram diferentes das que ocorriam na Carbonária Portuguesa, faziam-se ao ar livre, no campo, nos arredores de Lisboa, nas estradas e nos caminhos para a Tapada de Ajuda, nas minas do Canto, no Casal do Alvito, nas furnas da serra de Monsanto e até no Cemitério dos Prazeres.

Embora a Carbonária Lusitana fosse autónoma e formada maioritariamente por elementos operários que não recusavam a luta política, a colaboração táctica com o Partido Republicano Português (PRP) teve consequências e alguns militantes acabaram por se passar para o campo republicano.

A fusão entre as duas carbonárias ocorreu nos finais de 1907 ou início do ano seguinte. Ao ser exposta a actividade dos Obreiros do Futuro após a explosão na Estrela, com prisões e fugas para o estrangeiro, muitos dos seus membros integraram-se na Carbonária Portuguesa. A absorção ocorreu sem qualquer acordo formal, sentindo os carbonários lusitanos necessidade de serem enquadrados. As iniciações de António Maria da Silva e de Machado Santos tiveram importantes reflexos no futuro da Carbonária, pelos papéis que ambos iriam desempenhar, integrando a sua direcção juntamente com Luz de Almeida. As suas responsabilidades seriam ainda maiores após a ida do grão-mestre para o exílio, de onde só regressou depois de proclamada a República.

A iniciação de António José de Almeida trouxe à Carbonária um prestigiado caudilho republicano e facilitou as suas relações com a Maçonaria, cada vez mais sensível ao ideal republicano. Luz de Almeida, com a sua figura discreta de bibliotecário, percorria o país, fazia contactos, promovia iniciações, fundava novos canteiros ou Choças. Mesmo os elementos isolados, que não se podiam integrar nas estruturas ordinárias, mantinham uma ligação na qualidade de Vedetas. A sua ida para o estrangeiro impediu que estivessem em Portugal no momento da revolução. Há notícia da existência de outras organizações de cariz carbonário, autónomas mas actuando em consonância como os grupos Coruja e Mineiros.

Da velha Carbonária Lusitana – a Carbonária dos Anarquistas – sobreviveu um pequeno núcleo em redor de José do Vale, João Borges e Bartolomeu Constantino, que participarão no 5 de Outubro, mas sob a direcção da Carbonária Portuguesa. Nos relatos sobre as jornadas de Outubro de 1910, dos antigos carbonários lusitanos restam Bartolomeu Constantino, Carlos Antunes, António Alcochetano e José de Jesus Gabriel.

Quanto à Maçonaria, apesar de se dever manter fora da acção política num sentido partidário, a verdade é que a sua progressiva republicanização era evidente, ainda antes do grão-mestrado de Magalhães Lima, o que levou a um envolvimento mais directo dos maçons na mudança de regime. Sendo a Maçonaria uma organização progressiva, isto é, que sempre pugnou pelo progresso da Humanidade a todos os níveis, para muitos maçons, em Portugal, esse progresso era incompatível com a manutenção do regime monárquico. Daí a necessidade de mudança, não por razões partidárias, mas por razões nacionais. Foi o que sucedeu de um modo mais visível a partir da reunião de 14 de Junho de 1910, realizada no Palácio Maçónico, com centenas de maçons, na qual foram dados ao grão-mestre plenos poderes para organizar uma Comissão Maçónica de Resistência, em articulação com o Directório do PRP, composta por José de Castro – grão-mestre adjunto do Grande Oriente Lusitano Unido -, Miguel Bombarda, Cândido dos Reis, Francisco Grandela, José Cordeiro Júnior, José Simões Raposo, Manuel Martins Cardoso, António Maria da Silva e pelo próprio Machado Santos. Estes dois últimos, simultaneamente dirigentes da Carbonária Portuguesa.

A reunião de 29 de Setembro de 1910, na sede do Directório do PRP, na qual se preparou a revolução, é esclarecedora quanto aos elementos e forças envolvidos, dirigentes partidários, da Carbonária, de lojas maçónicas e do Grande Oriente Lusitano Unido: Simões Raposo, Machado Santos, José Cordeiro Júnior, António Maria da Silva, José Barbosa, Inocêncio Camacho, Cândido dos Reis, Manuel Martins Cardoso, Eusébio Leão, José Relvas, e Miguel Bombarda.

Crises e cisões

O papel da Carbonária nas jornadas de Outubro de 1910 foi determinante. Note-se que o almirante Cândido dos Reis, chefe máximo do movimento, era simultaneamente carbonário e maçom, o mesmo sucedendo com Machado Santos, o “pai” da República, que assumiu a chefia dos revoltosos na Rotunda.

Sobre a actividade da Carbonária após o 5 de Outubro de 1910, as informações ainda são escassas. Teve um papel mobilizador contra as incursões monárquicas, mas as dissenções no interior do Partido Republicano Português puseram termo à organização que tanto fez pela proclamação da República. Continuaram, certamente, a existir grupos de cariz carbonário, na sua maior parte ligados ao sector “democrático” do PRP, mas a velha Carbonária deixou de existir, porque a Monarquia, razão de ser da sua fundação e labor, também já não existia. Fora uma organização de contrapoder que visava destruir um regime e os pilares que o suportavam.

Entre 1910 e 1926, a Maçonaria estará presente em todos os níveis da vida política, social, económica e cultural do país. Em Março de 1910, o Grande Oriente Lusitano Unido contava com 97 Lojas e 58 Triângulos. Em igual data de 1911, aqueles números subiram para 122 Lojas e 79 Triângulos, e os efectivos passaram de 2844 em Março de 1910 para 3192 em igual mês do ano seguinte. Essa afluência também se deveu ao oportunismo dos que buscavam atestados de republicanismo.

Durante a Primeira República, cerca de metade dos ministros e dos parlamentares foram maçons. O mesmo sucedeu com três dos Presidentes da República: Bernardino Machado, Sidónio Pais e António José de Almeida, tendo o primeiro e o último sido grão-mestres do Grande Oriente Lusitano Unido.

As lutas políticas e as rivalidades pessoais não tardaram a fazer-se sentir, afectando a unidade do Partido Republicano. Os confrontos na Constituinte acabaram por revelar uma realidade que poucos continuavam a querer ignorar: alcançada a mudança de regime, a unidade era dispensável. O velho PRP irá fragmentar-se, dando origem a várias formações partidárias, e esse fenómeno acabou por ser transmitido à Maçonaria, que conheceu a partir de 1913 convulsões internas e uma grave cisão, em 1914, que só foi solucionada em 1926, pouco antes do 28 de Maio, quando já era tarde de mais. Outras sociedades secretas existiram nessa época e aguardam um estudo mais profundo, da Legião Vermelha aos Cavaleiros da Luz.

Professor da Faculdade de Letras de Lisboa e director do Centro de História da Universidade de Lisboa Esta série tem o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República

António Ventura in Jornal Publico, 18 Agosto 2010

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