Manuel Tito de Morais

100 anos do seu nascimento

100 anos do seu nascimento

No âmbito das comemorações do 100 aniversário do nascimento de Manuel Tito de Morais, que estão a ser marcadas por múltiplas iniciativas, realizou-se no passado dia 30 de Junho uma sessão no Grémio Lusitano, onde se evocou a figura do maçon.

Manuel Alfredo Tito de Morais, filho do herói da República Almirante Tito Augusto de Morais, além de antifascista, republicano e socialista, foi deputado à Assembleia da República chegando a ser seu Presidente entre 1983 e 1985.

Intervieram nesta sessão comemorativa o Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa António Reis, um representante da família e os Irmãos da Respeitável Loja José Estevão, Amândio Silva e José Paulo Silva Graça, cujas intervenções aqui deixamos.

Sapientíssimo Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano, Caro Amigo António Reis

Estimada Amiga Maria Carolina Tito de Morais, Presidente da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário Tito de Morais

Demais membros dessa Comissão

Caro irmão Luís Medeiros Ferreira, digno representante da Loja José Estevão

Companheiros Oradores
José Paulo da Silva Graça e Manuel Tito de Morais Oliveira

Demais membros da Família Tito de Morais

Demais Irmãos do Grande Oriente Lusitano

Ilustres convidados

Senhoras e senhores

Manuel Tito de Morais

Quando de minha iniciação como aprendiz maçom, escolhi como nome simbólico Nuno Álvares Pereira. Talvez porque desde os bancos de escola me encantava imaginar a Padeira de Aljubarrota a despachar sete castelhanos com sua pá de forno e D. Nuno a comandar os valentes combatentes lusitanos.

No entanto, no dia do funeral de Tito de Morais, acompanhei seu filho João, meu irmão de vida, no momento em que o caixão foi colocado no carro e, antes da porta se fechar, João ergueu o braço, com o punho fechado, na saudação socialista, e exclamou: “Adeus, Comandante!”

Essa despedida comovente me fez perceber que também eu sentia o velho Tito como meu Comandante e quis que assim continuasse no desenvolvimento de minha ainda recente vida maçónica. Então, em plena emoção, tomei a decisão de que meu nome simbólico deveria ser Manuel Tito de Morais, um grande português da nossa História Contemporânea.

E hoje estamos aqui, no Grande Oriente Lusitano, evocando Manuel Tito de Morais!

O que levaria um homem como Manuel Tito de Morais a ser iniciado aprendiz maçom no Grande Oriente Lusitano, beirando já os oitenta anos, depois de uma tão extraordinária quanto intensa vida de permanente luta política, depois de ter exercido cargos de grande relevância nas instituições nacionais, como deputado. membro do Governo e, culminando sua trajetória, Presidente da Assembleia da República?

Nunca lho perguntei, apesar de ainda termos pertencido à mesma Loja, a Loja José Estevão, uma das mais antigas do Grande Oriente Lusitano, durante pouco mais de um ano, o seu último ano de vida. Talvez a minha condição de então aprendiz me  inibiu de indagar sobre tal decisão, apesar de nossa grande amizade. Para esse meu silêncio, também deve ter contribuído sua já precária saúde, o que me levou a aproveitar os momento de suas melhoras para, nos nosso encontros, falarmos do Partido Socialista, a sua grande paixão.

Lembro um período muito difícil, de vários meses, no Hospital de Santa Maria, em que algumas vezes perdíamos a esperança de o rever e ouvir, tão longo foi o tempo em coma que atravessou. Quantas vezes, fazendo-me de forte, encorajei o João Tito, que quase sempre acompanhava nas horas da visita, quando ele não conseguia esconder seu temor de perder o pai, seu mestre, seu farol, embora tanto lhe custasse vê-lo inconsciente.

Mas Maria Emília, sua companheira de tantas lutas, valorosa como sempre. com sua estirpe guerreira, sempre acreditou que conseguiria reanimá-lo e , falando falando, sussurando, sussurrando, alteando de novo a voz: “Tito, eu sei que tu me ouves, faz favor de acordar e levantar!”, sem arredar pé de perto dele, foi mais uma vez vitoriosa, juntando sua força á dele, que afinal estava vivo e conseguiu voltar mais uns tempos ao convívio de sua família e de seus amigos.

Mas voltando à questão inicial. ouso pensar que naquele ano de 1990, Manuel Alfredo Tito de Morais, sentiu-se livre de seus deveres oficiais e apto a corresponder de pleno ao trabalho meritório da Maçonaria, com calma e recolhimento, pronto para a tranquilidade do pensamento e da reflexão no templo maçónico. Ele poderia então ser o maçom ritualístico, pois toda a vida já havia sido maçom, mas sem avental.

E esta realidade foi reconhecida pelo seu grande amigo José Magalhães Godinho. outra grande figura de republicano, socialista e maçom. que, ao fazer o discurso de boas vindas, após a iniciação, proferiu a já conhecida frase relativa a Tito de Morais:

“Eis um maçon que já o era antes de o ser!”. (E hoje ouvimos Manuel Alegre lembrar, na cerimónia da inauguração do seu busto: “Manuel Tito de Morais já era o Partido Socialista antes deste existir”)

Se a Maçonaria sempre teve por especial escopo agremiar homens livres e de bons costumes, que rendem um sincero culto
à virtude e procuram os meios de propagar a ética da cidadania, Tito de Morias, naquela altura, não resistiu ao apelo de se irmanar com companheiros socialistas como Magalhães Godinho e Raul Rego e com outros companheiros de ideais republicanos como Ramon de La Feria e Abílio Mendes. (outro maçom ilustre cujos filhos aqui presentes cumprimento pelo reconhecimento da Câmara Municipal de Lisboa que muito recentemente promoveu a inauguração de uma Rua com o seu nome em Lisboa,) E assim esse conjunto de magníficos cidadãos ficou enriquecido com a admissão de Tito de Morais como obreiroda Loja José Estevão, a que todos pertenciam.

Sobre a prática de Tito como maçom, já ouvimos o meu velho amigo e companheiro José Paulo da Silva Graça. Eu quero antes focar, usando a realidade actual, como um homem com o perfil de Manuel Tito de Morais só podia ser maçom, antes e depois, e afinal agora, porque, com tanta energia pulsando em sua memória, por certo nos acompanha no Oriente Eterno.

Socorro-me de um texto do nosso Grão Mestre António Reis, quando de sua investidura em 2005. A propósito do início da crise europeia, que nos últimos anos tanto se agravou, com a imprevidência dos poderes públicos e a insultuosa ganância dos especuladores, dizia António Reis:

“Mas não é nestas circunstâncias que mais se faz sentir a falta da palavra e da acção dos homens livres e de bons costumes que nos esforçamos por ser? Homens livres e de bons costumes! À força de repetirmos esta bela expressão, corremos o risco de a banalizar e sobretudo de lhe perdermos o seu sentido profundo nos tempos presentes. Homens livres de preconceitos, de vaidade, do egoísmo, das paixões e dos interesses mesquinhos. Homens que lutam contra o terror, a miséria, o sectarismo e a ignorância. Homens que combatem a corrupção e enaltecem o mérito. é este o sentido da nossa liberdade,dos nossos bons costumes. Não há maçonaria fora da aliança deste homens livres e de bons costumes, de carne e osso.”

E completava:

“O mundo contemporâneo, afogado em tacanhos materialismos ou dividido pelos dogmatismos religiosos, continua a precisar de quem eleve e una os homens na prática de uma moral universal assente nos superiores princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade e nos seus garantes institucionais da Laicidade, da Cidadania e de Democracia. Ora esse agente de elevação e de unidade moral tem sido desde há séculos a  Maçonaria universal. E assim deverá continuar a ser, através das estratégias e dos meios mais adequados aos desafios dos novos tempos.” (fim de citação)

E quem duvida que Manuel Tito de Morais estaria na linha de frente de todas estas batalhas por uma melhor democracia e por uma sociedade de valores humanistas, jorrando sua admirável determinação como cidadão maçom, laico, republicano e socialista?

E por tudo isso é de inteira justiça que em 2010 se comemore em Portugal o Centenário de Tito de Morais, como ponto muito alto dos100 Anos da sua, da nossa República.

Amândio Silva
Lisboa, 30 de Junho de 2010

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Tito de Morais – Homem e Maçon

Sapientíssimo Grão-Mestre,

Querida Maria Emília,

Ilustres Membros da Família de Manuel Tito de Morais,

Ilustres Convidados,

Meu Querido Irmão Luís Medeiros Ferreira,
em representação do Venerável Mestre da Loja José Estêvão,

Minhas Queridas Irmãs,

Meus Queridos Irmãos,

Minhas Senhoras e Meus Senhores

“O Manuel Alfredo Tito de Morais antes de ser Maçom já o era” – foi mais ou menos com estas palavras que o nosso Irmão Zé Magalhães Godinho se referiu ao Recipiendário, o Irmão Manuel Alfredo Tito de Morais, acabado de ser iniciado, e a que hoje prestamos homenagem. Sintetizava assim um percurso notável do Homem, Cidadão e Político que agora recordamos.

Isto aconteceu no ano de 1990, ano em que o Irmão Tito Augusto Morais, nome Simbólico por si adoptado, foi iniciado na Loja José Estêvão. E eu tive a oportunidade de, à época, como Secretário da Loja, ter assistido e registado tal acontecimento.

Não posso deixar de referir que, então, esta Augusta, Benemérita e Respeitável Loja era uma das de maior prestígio no Grande Oriente Lusitano – uma das três Lojas que não tinha abatido colunas durante os anos da ditadura do Estado Novo, e que tinha contado e ainda contava, à época, nos seus Quadros com nomes de prestigiados Maçons, como o já referido José Magalhães Godinho, os Abílio Mendes (pai e filho, ambos prestigiados médicos), o Ramon de La Féria (Grão-Mestre do GOL), o Gualter Basílio (ex-preso político e Deputado do PS), o Miguel Magalhães (fundador do PSD), o José Nunes Vicente, o João Vital, etc… etc…, e outros que me abstenho de citar porque ainda vivos, e como tal não os devo revelar como Maçons.

Mas, voltemos ao Manuel Alfredo Tito de Morais. Conheci-o em Maio de 1974, quando ele e a Maria Emília, sua dedicada mulher, coordenavam a febril actividade vivida na então Sede Nacional do PS, a S. Pedro de Alcântara.

Tinha chegado a Portugal a 27 de Abril de 1974, no “comboio da liberdade”. Então Tito de Morais terá dito aos seus companheiros mais próximos, Mário Soares, Ramos da Costa, o meu querido amigo Fernando Oneto, e outros que com ele tinham feito a viajem: «podia ter morrido hoje que a minha vida já estava completa».

Licenciado em Engenharia Electrotécnica pela Universidade de Gand, na Bélgica, iniciou a sua actividade política na resistência antifascista quando, em 1945, integrou a Comissão Central do MUD e depois, como seu representante, participou na campanha eleitoral do General Norton de Matos, past Grão-Mestre do GOL. Já em Angola, o Manuel Tito de Morais participou na campanha do General Humberto Delgado, em 1958. Na Argélia, como exilado, foi dirigente da Junta de Salvação Nacional e, em Genebra, no ano de 1964, fundou a Acção Socialista Portuguesa, que mais tarde, em 1973, dará origem ao Partido Socialista, de que foi um dos seus fundadores. Preso político, exilado e perseguido pela PIDE, Manuel Tito de Morais foi o primeiro director do jornal Portugal Socialista. Foi deputado à Assembleia Constituinte em 1975 e à Assembleia da República no ano seguinte. Entre Maio de 1979 e Abril de 1980, foi vice-presidente da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa. Ocupou a vice-presidência da Assembleia da República entre 1977 e 1983, ano em que foi eleito Presidente, cargo que desempenhou até 1985. No VI Congresso do Partido Socialista foi eleito para a presidência do Partido, cargo que exerceu entre 1986 e 1988. E, apesar de todo este curriculum, o Manuel Tito de Morais era uma pessoa modesta e de uma enorme simplicidade.

Mas, voltemos à Maçonaria; e aqui, não posso deixar de referir que, como Maçom, o Manel teve uma actividade exemplar – apesar da sua idade, e de problemas de saúde – o Irmão Tito Augusto Morais, nunca faltava às Sessões de Loja, dando assim um exemplo a tantos de nós que, muitas vezes, privilegiámos outras actividades, profanas e mesmo maçónicas, em detrimento da actividade em Loja. E, meus amigos e queridos maçons, a maçonaria faz-se em Loja. É em Loja que nos aperfeiçoamos como homens e cidadãos, e desenvolvemos o sentimento de fraternidade. É no trabalho em Loja, desbastando a pedra bruta, que procuramos um maior desenvolvimento espiritual, moral e ético.

Durante estes 9 anos como Maçom, o Manel nunca deixou de estar presente nos festivos almoços anuais da José Estêvão, brancos, como é evidente, e aos quais sempre levava membros da sua família – filhos, genros e noras. Alguns dos quais, hoje aqui presentes, ainda se deverão lembrar, com certeza, desse acontecimento anual da José Estêvão, que tinha lugar no primeiro sábado do princípio do Ano; das inteligentes e bem humoradas intervenções do Luís Nunes de Almeida, e do ambiente fraternal que neles se vivia – como se fazia maçonaria! Como fraternizávamos uns com os outros, e com as nossas famílias!

O Eng. Manuel Alfredo Tito de Morais, o Irmão Tito Augusto Morais, é, na minha modesta opinião, um elo muito forte, do metal mais puro, dessa longa Cadeia de União, que vem do passado e se prolonga no futuro, de Homens Livres, de todas as nacionalidades e crenças que, não aceitando dogmas, têm combatido todas as formas de opressão, lutando contra a miséria, o sectarismo e a ignorância, pela LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE.

E, termino, deixando este apontamento, neste ano do centenário da República – o do Manel ter escolhido como seu nome simbólico o de Tito Augusto de Morais, em homenagem a seu pai, um dos heróis da insurreição militar de 4 e 5 de Outubro de 1910.

Seu pai não esteve nas barricadas da Rotunda, é verdade, mas desempenhou um papel proeminente na margem do Tejo, na tomada do quartel dos marinheiros, no assalto aos paióis, no comando do navio de guerra S. Rafael e, na rua, juntando-se aos carbonários, à frente de uma centena de homens, com uma metralhadora e vários cunhetes de cartuchos, continuando assim o ataque ao Palácio Real. Depois, o Almirante Tito Augusto de Morais, desenvolveu, durante a sua longa vida, toda uma carreira político e militar, sempre sob a ética Republicana, e exemplar para todos nós e para toda a sua família.

Com a escolha deste nome simbólico, o querido Irmão Manuel Alfredo Tito de Morais quis prestar homenagem à República, que tão longamente, e sempre com grande relevo e desprendimento serviu.

Bem hajas Manel.

Disse.

Silva Graça
Lisboa, 30 de Junho de 2010

In  gremiolusitano.eu

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