Busto da República

Ilda Pulga- O Rosto da Republica (Daniel Rocha)

O orgulho está patente na forma como um dos descendentes de Ilda Pulga, a “musa” que serviu de modelo para o primeiro busto da República, descreve a sua familiar, que supõe ter sido “uma mulher atrevida” para a época.“Deverá ter sido uma mulher lindíssima, para o escultor a ir buscar para ser o seu modelo para o busto, o que me leva a pensar também que terá sido uma pessoa muito atrevida” para a época, afirma à agência Lusa Joaquim Pulga.

Apesar de não ter conhecido Ilda Pulga, que faleceu em 1993, com 101 anos, o sobrinho bisneto da mulher que posou e inspirou o escultor que concebeu o busto da República encara esse facto como “um afago para o ego”. “Uma pessoa que, aos 18 ou 19 anos, serve de modelo a um escultor para busto da República deve ter evoluído de uma forma diferente do comum dos mortais”, presume, considerando que a sua familiar “terá sido uma mulher com uma vida cultural muito intensa”.

O interesse de Joaquim Pulga pelo assunto “nasceu” em 1993, depois de ler num jornal a notícia da morte da Ilda Pulga. Na altura, desconfiou, porque, segundo diz, “Pulgas em Portugal só há uma família”, que é a sua. “Ao ver no jornal Ilda Pulga, natural de Arraiolos, fui procurar, mas foi muito difícil, porque tinha de entrar nos arquivos da igreja”, conta, lembrando que “só a partir da implantação da República é que os assentos começaram a ser feitos no registo civil”.

Como nos registos paroquiais de Arraiolos Joaquim Pulga não conseguiu encontrar informação sobre a sua tia-bisavó, decidiu recorrer aos amigos que conhece naquela vila alentejana. “Indicaram-me um velhote que se lembrava de uma família Pulga em Arraiolos. Depois, fui junto dos meus familiares e cheguei à conclusão que a dita senhora só podia ser da minha família”, refere, explicando que Ilda Pulga era irmã do seu bisavô.

Para Lisboa à procura de uma vida melhor
Joaquim Pulga ficou então a saber que “a senhora foi para Lisboa muito jovem, com os seus 10 a 13 anos”, e que “as fomes daquela altura”, no Alentejo, que “eram muito grandes”, terão motivado a sua mudança para a capital. “Deve ter ido para Lisboa à procura de uma vida melhor. Provavelmente foi com a sua família, o que já não posso confirmar”, supõe, garantindo, contudo, que a sua familiar foi costureira.

O sobrinho bisneto da “mulher que representa a República” lembra ainda que sempre existiu uma “grande dúvida sobre quem foi o escultor do busto”, mas defende que “o verdadeiro autor foi João da Silva, que usava como pseudónimo João da Nova”. “Era João da Nova porque também escrevia para a revista Seara Nova”, acrescenta.

Busto fica inalterado

O busto da República foi aprovado oficialmente em 1911 mas a Comissão para as comemorações do centenário desvaloriza qualquer intenção em alterar a escultura, como ocorreu em França. Após a libertação de Paris, em 1944, durante a II Guerra Mundial, a Associação dos Autarcas Franceses decidiu mudar periodicamente o busto de “Mariana”, adoptando como modelos artistas de cinema e da música francesas contemporâneas, sendo a manequim e actriz Laetitia Casta o modelo actual da escultura.

Em Portugal, a escultura não sofreu alterações e passado um século da Revolução de 05 de Outubro de 1910 a Comissão para as Comemorações do Centenário não prevê a modernização do símbolo. Fernanda Rollo, Comissária das Comemorações do Centenário da República, disse à Lusa que, ao contrário de França, dificilmente a sociedade portuguesa iria aceitar a mudança e que o importante é conhecer o busto actual. “Temos dinâmicas diferentes [de França]. Não está prevista pela Comissão qualquer iniciativa no sentido de mudar o busto da República. Estamos mais interessados em conhecer o busto actual e as várias manifestações artísticas que inspirou. Em relação a França, não temos de ter esse quadro de mimetização. Não sei se a sociedade portuguesa aderiria a este tipo de mudanças”, disse a historiadora Fernanda Rollo.

António Reis, historiador e grão mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL), também partilha da mesma opinião e sublinha que a mudança poderia significar a “folclorização” de um símbolo histórico. “Podemos ser fiéis a este busto. Não vejo necessidade da sua modernização. Não sou muito sensível a essa mudança, seria a folclorização do busto. Trata-se de um símbolo histórico. Tenho respeito pelas iniciativas e pela República francesa mas gosto muito dos bustos da República aprovados em 1911 (em Portugal). Mantenho-me fiel a este busto republicano”, disse António Reis à Lusa que não põe sequer a hipótese de pensar numa “inspiradora” que, à semelhança do caso francês, poderia servir de modelo a um eventual novo busto da República Portuguesa. “Uma inspiradora? Nem ponho essa hipótese”, acrescentou António Reis.

Também António Arnaut, antigo grão mestre do GOL, considera que alterar o busto da República seria deturpar os símbolos originais da República Portuguesa. “Os símbolos são representações perpétuas da ideia. Mudar o busto seria um absurdo. Uma profanação”, disse António Arnaut à Lusa. Para o antigo grão mestre do GOL a “imagem, o busto da República, foi a corporização dos republicanos da altura. Foi criada uma bandeira, um hino e um busto. Símbolos que não podem ser alterados sob pena de alterar os valores da República: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, herdados da Maçonaria”.

Segundo António Arnaut a figura deve manter-se inalterável, tal como a bandeira e o hino nacionais. “Assim como não se pode alterar a bandeira e o hino, não se pode alterar o busto da República. Mudar? O penteado? Tirávamos o barrete frígio à República ? Esta é que é a República e, apesar de ter 100 anos, está jovem, e não ainda verdadeiramente realizada”, clonclui Arnaut.

Por seu lado, Joaquim Pulga, descendente da mulher natural de Arraiolos, que serviu de modelo à escultura da República Portuguesa, afirma não ter “renitências à adopção do modelo francês” em Portugal, desde que “se conserve a base estética do busto original”. Para o sobrinho bisneto de Ilda Pulga seria possível conseguir um equilíbrio entre o passado e o presente. “Por princípio, penso que a evolução harmoniosa das sociedades está num equilíbrio entre a tradição e a inovação”.

No dia 31 de Janeiro, no Porto, tem início o programa das comemorações oficiais do centenário da República, implantada a 5 de Outubro de 1910, que decorrerão ao longo do ano.

por LUSA

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